Pequeno tico-tico pousado num galho com gotas de orvalho ao amanhecer, com céu azul-claro desfocado ao fundo

Como Lidar com Preocupações Excessivas

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São cinco e dez da manhã quando Ivone começa a arrumar as couves na banca da feira, em Uberlândia. O céu ainda está cinzento, o caminhão do fornecedor acabou de sair, e ela já carrega no peito um peso que não é das caixas. No verso de um saco de papel pardo, entre uma conta e outra, rabiscou a lista que a acompanhou a noite inteira: “E se chover e ninguém vier? E se o Davi não passar na entrevista? E se o aluguel da banca subir de novo?”

Nenhuma daquelas coisas tinha acontecido. Mesmo assim, Ivone já tinha vivido cada uma delas três ou quatro vezes antes de o sol nascer.

Talvez você conheça essa sensação: a preocupação que começa como cuidado e, sem a gente perceber, vira um hábito de sofrer por antecipação. O Espiritismo tem muito a dizer sobre isso, e com uma ternura que surpreende.

Quando o cuidado vira peso

Preocupar-se, em certa medida, é sinal de responsabilidade. Quem ama se interessa pelo futuro dos seus, quem trabalha planeja, quem tem contas organiza. O problema começa quando o pensamento gira em círculo, sem chegar a nenhuma decisão, e rouba a energia de que precisamos para viver o dia.

Allan Kardec mostra, em O Livro dos Espíritos, que o pensamento é uma força ativa da alma. Aquilo que alimentamos por horas a fio não fica parado: molda o humor, o corpo e a maneira como tratamos os outros. A preocupação excessiva acaba sendo uma espécie de prece às avessas, em que mentalizamos com insistência justamente aquilo que mais tememos.

“Não vos inquieteis pelo dia de amanhã”

Jesus falou disso com uma imagem simples. No Sermão da Montanha, convidou os ouvintes a olhar as aves do céu e os lírios do campo, que não acumulam em celeiros e, ainda assim, são sustentados. E lembrou que a cada dia basta o seu próprio cuidado.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo “Buscai e achareis”, Kardec comenta essa passagem com equilíbrio: Jesus não recomenda a preguiça nem o descaso com o amanhã, pois a Providência ajuda quem se ajuda. O que o Mestre desaconselha é a inquietação que tira a paz e a confiança em Deus, como se tudo dependesse apenas das nossas forças.

O que está por trás da inquietação

Na visão espírita, a aflição diante do futuro costuma nascer de fontes que se misturam:

  • A ilusão de controle. Queremos garantir o resultado de coisas que não dependem de nós, e cada imprevisto parece uma ameaça pessoal.
  • A memória de dores antigas. Experiências difíceis, desta vida ou de outras, deixam marcas que fazem a alma esperar sempre o pior.
  • A fé ainda frágil. Acreditamos em Deus, mas nem sempre confiamos de verdade que a vida tem sentido quando foge dos nossos planos.

Reconhecer essas raízes não é motivo de culpa. É o primeiro passo para tratá-las com paciência, como quem cuida de uma ferida devagar.

Passos práticos para serenar a mente

Emmanuel, pela mediunidade de Chico Xavier, insiste em muitas páginas que o hoje é a nossa oportunidade concreta. O ontem já passou; o amanhã ainda não chegou. É no presente que o Espírito trabalha e cresce. Alguns gestos ajudam a voltar para ele:

  1. Separe o que depende de você. Escreva as preocupações e marque ao lado o que pode ser feito hoje. O que não pode, entregue em prece.
  2. Faça uma coisa de cada vez. Uma tarefa concluída acalma mais do que dez problemas revirados na cabeça.
  3. Ore sem pedir só soluções. Peça também serenidade para aceitar o que não muda e coragem para agir no que pode mudar.
  4. Cuide do corpo. Sono, alimentação e uma caminhada leve fazem parte da higiene da alma; não são luxo.
  5. Converse com alguém de confiança. Dividir o peso desfaz muitos fantasmas que só crescem no silêncio.

Fé e cuidado andam juntos

Há momentos em que a preocupação deixa de ser só um hábito e passa a ser sofrimento constante: aperto no peito, noites sem dormir, crises que paralisam. Nesses casos, procure um médico ou um psicólogo. Buscar ajuda profissional não é falta de fé. O Espiritismo sempre viu a ciência como aliada, e o tratamento caminha muito bem ao lado da prece, do passe e do estudo.

A lista no saco de papel

Lá pela metade da manhã, entre um freguês e outro, Ivone pegou de novo o saco de papel. Leu a lista com outros olhos. O céu tinha aberto, a banca estava cheia de gente, e o Davi ainda nem tinha entrado na sala da entrevista. Ela virou o saco do avesso e escreveu só duas linhas: “Hoje: vender as couves. Ligar pro Davi às seis.”

Depois guardou o papel no bolso do avental e respirou fundo. O amanhã continuava lá, com as suas incertezas. Mas o hoje, enfim, tinha voltado a caber nas mãos dela.

Que você também consiga, aos poucos, trocar a lista do “e se” pela lista do “hoje”. Deus não nos pede que adivinhemos o futuro; pede apenas que façamos bem a parte que nos cabe, confiando que nunca caminhamos sozinhos.

Leia também: Ansiedade e Explicação Espiritual: Equilíbrio Emocional


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