Fachada de prédio residencial na hora azul, com dezenas de janelas iguais, algumas acesas com luz amarela, simbolizando a lei de igualdade no espiritismo

Lei de Igualdade: Todos Somos Iguais Perante Deus

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Wanderley é porteiro noturno de um prédio de doze andares na Praia do Canto, em Vitória. Das dez da noite às seis da manhã, quem chega toca o interfone, e a imagem aparece numa telinha cinzenta sobre o balcão. Foi ali, numa madrugada de quinta-feira, que ele reparou numa coisa que nunca tinha percebido em onze anos de profissão: na câmera, todo mundo tem o mesmo tamanho.

O motoboy que trouxe a pizza do 804, ainda de capacete. O desembargador do 1201, voltando de um jantar. A diarista que chegou às cinco e meia, com a sacola do pão. Na tela de sete polegadas, nenhum é maior que o outro. Wanderley riu sozinho e escreveu no caderno de ocorrências, onde costuma anotar só encomendas e lâmpadas queimadas: “A câmera não sabe quem é importante.”

Sem perceber, ele tinha resumido uma das leis morais que Allan Kardec estudou com mais cuidado.

O que é a lei de igualdade no Espiritismo

Em O Livro dos Espíritos, a terceira parte trata das leis morais, que orientam a caminhada do Espírito rumo ao bem. Uma delas é a lei de igualdade. Quando Kardec pergunta se todos os homens são iguais perante Deus, a resposta dos Espíritos é direta: sim, todos tendem para o mesmo fim, e as leis divinas foram feitas para todos.

A ideia é simples e profunda. Deus não criou Espíritos de primeira e de segunda classe. Segundo a Doutrina Espírita, todos fomos criados simples e ignorantes, com a mesma possibilidade de progredir e o mesmo destino: a perfeição que cada um conquista pelo próprio esforço, ao longo de muitas existências.

Se somos iguais, por que há tanta diferença?

É a pergunta que qualquer pessoa faz ao olhar em volta. Uns nascem com facilidade para a música, outros mal conseguem afinar a voz. Uns crescem em casas confortáveis, outros dividem um cômodo com cinco irmãos. Kardec separa duas coisas que costumamos misturar.

  • As diferenças de aptidão vêm da experiência acumulada pelo Espírito. Quem já se dedicou, em outras vidas, a determinada habilidade traz essa bagagem. Não é privilégio concedido por Deus, é conquista; e quem hoje está atrás pode amanhã estar à frente.
  • As desigualdades sociais são obra humana, não divina. A Codificação ensina que elas nascem do orgulho e do egoísmo, e que tendem a diminuir à medida que a humanidade se melhora moralmente.
  • A riqueza e a pobreza são provas, cada uma com seus riscos. O rico é testado no uso que faz do que tem; o pobre, na paciência e na dignidade diante da escassez. Nenhuma das duas condições define o valor de alguém.

A diferença no ponto de partida desta vida existe, mas não apaga a igualdade de origem e de destino. Somos alunos em séries diferentes da mesma escola.

Igualdade entre homem e mulher

Um ponto que surpreende quem lê Kardec pela primeira vez, sobretudo lembrando que o livro saiu em 1857: os Espíritos afirmam a igualdade de direitos entre o homem e a mulher. As diferenças de organização física dizem respeito às funções de cada um, não a uma superioridade moral. E, como o Espírito pode reencarnar ora num corpo masculino, ora num feminino, o desprezo por um dos dois acaba sendo desprezo pela própria trajetória.

Iguais diante do túmulo

Há ainda uma igualdade que ninguém contorna. A morte não pergunta pelo cargo, pelo saldo bancário nem pelo sobrenome. O que atravessa a fronteira é o que cada um construiu por dentro: o bem que fez, os afetos que cultivou, as lições que aprendeu. Kardec observa que os monumentos e as cerimônias luxuosas falam mais da vaidade dos que ficam do que do valor de quem partiu.

Como viver a lei de igualdade no dia a dia

  1. Cumprimente pelo nome. O porteiro, a moça do caixa, o rapaz da entrega. Saber o nome de alguém é reconhecer que essa pessoa existe por inteiro.
  2. Repare a quem você dá atenção. Observe, com honestidade, se a sua gentileza muda conforme a roupa, o cargo ou o carro de quem está à sua frente.
  3. Respeite o ritmo do outro. Quem ainda não compreende o que você compreende está em outra etapa do mesmo caminho, não abaixo de você.
  4. Use o que tem como ferramenta. Talento, dinheiro e influência servem para servir, como lembra O Evangelho Segundo o Espiritismo ao falar do bom uso dos bens da Terra.
  5. Não se diminua. A lei de igualdade vale também para dentro. Ninguém é menos filho de Deus por estar atravessando uma fase difícil.

A câmera do interfone

Quando o dia clareou, Wanderley abriu o portão para o motoboy, que voltou para buscar a maquininha de cartão esquecida, e logo depois para o desembargador, que saía para a caminhada. Disse o mesmo “bom dia” aos dois, no mesmo tom. Ninguém reparou. Ele reparou.

Talvez seja assim que a lei de igualdade entra na vida: não em grandes discursos, mas no jeito de olhar cada pessoa que aparece na nossa tela, do mesmo tamanho, filha do mesmo Pai, caminhando para o mesmo lugar. Isso inclui o rosto que vemos no espelho, que também merece respeito, paciência e cuidado.

Leia também: Lei de Progresso: Por Que Estamos Sempre Evoluindo e Caridade Segundo o Espiritismo: Muito Além da Esmola.


📚 Para aprofundar o estudo, vale ler o capítulo sobre a lei de igualdade em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec. Ali estão as perguntas e respostas sobre as desigualdades, a riqueza, a pobreza e os direitos de homens e mulheres. É uma leitura que muda o jeito de olhar o próximo e a si mesmo.

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