Mesa comprida posta ao ar livre num sítio ao entardecer, com panelas, pães, flores e cadeiras de palha sob um varal de luzes

Caridade Segundo o Espiritismo: Muito Além da Esmola

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Seu Odair mantinha, debaixo do balcão do mercadinho, um caderno de capa dura com a lombada gasta. Ali ficavam anotadas as compras fiadas do bairro: nome da cliente, o que levou, quanto devia. No fim de cada mês, ele se sentava com o caderno e uma caneta, e algumas páginas ele simplesmente fechava. Sem aviso, sem recibo, sem cobrar. A pessoa seguia entrando no mercadinho, cumprimentava, comprava de novo, e nunca soube que aquela conta tinha ficado em branco.

A filha dele, que o ajudava aos sábados, descobriu por acaso. “Pai, a dona Neuza deve há quatro meses.” Ele olhou para o balcão e respondeu sem levantar a voz: “Ela me deve uma conta. Eu devo a ela uma porta aberta. Se eu cobrar, ela não volta”.

Não houve discurso. Ele nunca usou a palavra “caridade”. Mas era disso que se tratava.

O que Jesus e Kardec entendem por caridade

Quando se fala em caridade, quase todo mundo pensa em doar: uma cesta básica, uma roupa, uma moeda. É um gesto valioso, e a Doutrina Espírita o incentiva. Mas o ensinamento é bem mais amplo.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec registra a resposta dos Espíritos sobre o verdadeiro sentido da caridade, como Jesus a entendia: benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros e perdão das ofensas. Repare que a definição quase não fala de dinheiro. Fala de olhar, de paciência, de modo de tratar as pessoas.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o capítulo “Fora da caridade não há salvação” reforça a ideia. A caridade aparece como o princípio que organiza todos os outros: sem ela, a fé é só discurso e o conhecimento é só vaidade.

Duas faces do mesmo gesto

Costuma-se falar em caridade material e caridade moral:

  • Material: alimentar, vestir, abrigar, ajudar com tempo, com trabalho, com recursos.
  • Moral: ouvir sem pressa, não espalhar o erro alheio, consolar, perdoar, dizer uma palavra de ânimo, ter paciência com quem é difícil.

Muita gente que não tem dinheiro sobrando exercita a segunda face todos os dias sem perceber. E há quem dê muito e fale mal de todos. A Doutrina pede as duas, e lembra que a moral costuma ser a mais difícil, porque não dá para resolver com uma transferência.

O jeito discreto de ajudar

Há uma sugestão do Evangelho, comentada por Kardec, que explica bem o gesto do seu Odair: que a mão esquerda não saiba o que faz a direita. A caridade verdadeira dispensa plateia, aplauso e agradecimento. Quem ajuda para ser visto talvez esteja alimentando o próprio orgulho. E quem recebe merece manter a dignidade, sem ser exposto.

Isso não proíbe campanhas coletivas, que são muito úteis. Mas o convite é para perguntar, antes de ajudar: estou fazendo isso pelo outro ou pela imagem que quero passar?

Caridade com bom senso

A boa vontade também precisa de discernimento. Algumas observações práticas:

  1. Ajude com atenção à necessidade real. Às vezes o que a pessoa precisa não é o que imaginamos. Pergunte, escute, observe.
  2. Prefira instituições sérias quando for doar. Associações conhecidas, com transparência e atuação comprovada, costumam alcançar mais gente com mais eficiência.
  3. Caridade não é anulação de si. Quem se esgota ajudando todo mundo e se esquece da própria saúde, da família e do descanso não está fazendo bem a ninguém. Cuidar de si faz parte.
  4. Não confunda caridade com facilitar o erro. Ajudar a levantar é diferente de sustentar um comportamento que machuca a própria pessoa ou outras. Às vezes, o gesto de amor é um “não” com carinho.
  5. Comece pequeno e constante. Uma hora por semana de voluntariado vale mais que um esforço heroico que dura um mês.

Gestos que cabem em qualquer dia

Para quem acha que “não tem como ajudar”, algumas ideias que não custam nada ou quase nada:

  • Cumprimentar o porteiro, o motorista, a atendente, olhando nos olhos.
  • Visitar ou ligar para alguém que está só.
  • Ceder a vez, o assento, o tempo.
  • Responder com calma quando alguém é grosseiro.
  • Compartilhar o que se sabe, ensinando sem humilhar.
  • Fazer uma prece pelos que sofrem, inclusive por quem nos magoou.

O caderno que ficou

O mercadinho do seu Odair não deu fortuna. Quando ele se aposentou, a loja foi vendida por um preço modesto. Mas na despedida, a fila de gente entrando para abraçá-lo ocupou a calçada inteira. Dona Neuza veio de bengala, trouxe um bolo de fubá e não disse uma palavra sobre a conta. Entendeu sozinha, como entendem as pessoas que já receberam uma porta aberta.

Talvez a medida da caridade seja essa: o que ela deixa de leve em quem recebe e de bom em quem dá, sem precisar de nome, de recibo ou de explicação. Todos temos alguma página que podemos fechar, algum gesto que podemos abrir.


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