Livre-Arbítrio e Espiritismo: Somos Realmente Livres?

Livre-Arbítrio e Espiritismo: Somos Realmente Livres?

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O despertador toca às seis e dez. A mão vai até o celular sozinha, como quem conhece o caminho de olhos fechados, e o dedo hesita entre dois botões: soneca ou levantar. Parece pouca coisa. Só que ninguém está te empurrando para nenhum dos dois. Essa decisão minúscula, repetida por anos a fio, vai desenhando aos poucos o tipo de pessoa que você é.

A correnteza e o leme

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec registra que o ser humano é livre para pensar e, por isso mesmo, livre para agir. Sem essa liberdade, seríamos peças de uma máquina, e não haveria mérito nem responsabilidade em coisa alguma.

Mas nem tudo depende de nós, e a Doutrina não finge o contrário. A família em que nascemos, a saúde que temos, certas perdas que chegam sem pedir licença: tudo isso é a correnteza. Segundo os espíritos, muitas dessas provas foram aceitas por nós mesmos antes de reencarnar, como quem escolhe um trecho difícil do rio porque sabe que vai aprender a remar ali.

Só que quem nasce numa correnteza não deixa de ter as mãos no leme. Como reagir, o que fazer com o que veio, que tipo de pessoa ser dentro daquela circunstância: é aí que mora o livre-arbítrio.

Liberdade não é ausência de consequências

A lei de causa e efeito é a outra metade dessa conversa. Cada escolha planta uma semente, e semente não é castigo: é só o que ela dá. Quem escolhe alimentar o rancor colhe noites mal dormidas. Quem escolhe pedir desculpas colhe, quase sempre, um peito mais leve.

Repare que isso tira o peso da ideia de “destino escrito”. Ninguém está condenado a repetir o que fez ontem. E tira também a desculpa fácil do “eu sou assim”, porque o que somos hoje é, em boa parte, a soma das escolhas de ontem.

Quanto mais se escolhe o bem, mais livre se fica

Aqui a Doutrina Espírita diz algo que costuma surpreender. Ser livre não é fazer tudo o que dá vontade. Quem vive sob o comando da raiva, do ciúme ou de um vício já entregou o leme a outra pessoa, e a outra pessoa é a própria paixão. A liberdade verdadeira cresce com a educação moral.

Quem cultiva paciência ganha, aos poucos, um intervalo entre o que sente e o que faz. E é nesse intervalo, de meio segundo que seja, que a escolha acontece.

Recomeçar está sempre ao alcance

Uma escolha errada não fecha a porta da próxima. A reencarnação ensina que a vida é feita de novas oportunidades, e no dia a dia isso vale em ponto pequeno: hoje ainda dá tempo de pedir perdão, de mudar de rumo, de tentar de novo.

A prece ajuda nessas horas, mas não decide por você. Ela acende a luz do cômodo onde você vai escolher, e depois a escolha continua sendo sua. O Consolador prometido chega assim, iluminando o caminho sem caminhar por nós.

Se algum hábito parecer maior do que a sua vontade, procurar ajuda profissional também é um ato de livre-arbítrio, e dos mais corajosos.

Amanhã, quando o despertador tocar às seis e dez, lembre-se de que aquele dedo hesitando entre dois botões guarda uma liberdade inteira. Comece por ela, e comece pequeno: levantar sem pressa, ligar para alguém de quem sente falta, dormir mais cedo esta noite. É assim que se pega o leme.

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